Artistas que fazem das ruas seu melhor palco
“As pessoas que vivem
assim já nasceram assim.” Comenta o artista de rua paulistano Fernando Frances
de 29 anos.
Paz
e amor, essa era a célebre frase associada um movimento de contracultura que
nasceu nos anos de 1960, denominado movimento Hippie. Suas principais
características eram a vida nômade, e a comunhão com a natureza, eram também
contrários a guerra ou qualquer outra violência. Esse grupo idealista ganhou
espaço e até hoje é possível perceber suas influências. Mas as pessoas
corajosas que hoje deixaram suas famílias e o conforto de suas casas para se
aventurar mundo a fora não se denominam mais como hippie, preferem serem
chamados de andarilhos, viajantes, alguns de artesão, e outros de artistas de
rua.
A
cumplicidade o respeito que esses viajantes têm uns com os outros, e a paixão
pela forma de vida escolhida impressiona qualquer pessoa que não esteja
acostumada com essa opção de vida. Percebe-se isso pela forma como partilham o
pouco que conseguem. Normalmente quando chegam a um local procuram saber onde
fica a “pedra”. Pedra é o local onde eles expõem seus produtos, onde encontram
os demais artesãos e compartilham alimentos, essa é uma alternativa para não
deixar ninguém ficar sem comida. Geralmente é um lugar público onde circulam
grande quantidade de pessoas, como praças e pontos turísticos.
Fernando
Sempre se interessou por trabalhar com pedras, o que hoje é a principal matéria
de seu artesanato, não se limitando somente na rua, também anima festas e
festivais. Costuma passar 10 a 15 dias em cada local. Antes de vir parar cidade
de Rio Branco, ele estava na aldeia dos índios Kaxinawá em Feijó. Em poucos
dias pretende fazer o percurso: Bolívia, Peru, Argentina, Chile, Uruguai até
chegar ao sul do Brasil e voltar para Brasília. Seu maior interesse a vir ao
Acre foi não só pelo material e cultura indígena, como também pela Ayahuasca,
bebida consumida em rituais dentro da doutrina espiritualista do Santo Daime ou
em tribos indígenas. Sobre seus trabalhos artesanais ele acrescenta: “Não estou
colhendo só os materiais, mas a cultura que o material leva como o material
indígena que têm toda uma cultura por trás, as pedras, as sementes. Tudo isso é
arte e cultura. Por isso não vendo só artesanato, tem toda uma historia por
trás disso.”
O
artista de rua se empolga ao falar de sua vida, e retoma questionamentos importantes
sobre os valores sociais “A gente viaja, a gente aprende de tudo, a gente vê
que as coisas matérias não vão trazer riqueza nenhuma, a gente busca fazer o
que é bom, buscar Deus e Jesus que era um peregrino, também rodou muito, tenho
ele como inspiração, qualquer um deve ter ele como inspiração, seguir os passos
de Jesus e tentar ao máximo levar as coisas boas, porque eu não quero minha
cultura só pra mim, todo lugar que eu chego eu ensino eu participo, fazendo
minha vida útil pra alguém, não penso só em mim”.
Outro
viajante é Lúdme Rocha Tavares de 33 anos nasceu em recife e hoje vive no Pará.
Saiu de casa aos 17 anos para se tornar um viajante vendendo seu artesanato por
onde passa. Sobre seu interesse ao vir ao Acre ele comenta: “é mais um pedaço
do planeta, como sou viajante quero conhecer mais um pedacinho do que eu já
conheço”. Lú, como gosta de ser chamado, está no estado há um mês, e perguntado
sobre os desafios da vida que leva, responde: “desafios a gente encontra em
qualquer lugar do mundo, em qualquer tipo de vida, filosofia ou forma de
pensar. Cada lugar uma lei, uma história diferente, filosofias de vida
diferentes, culturas diferentes e pensamentos diferentes.”
O
andarilho também alerta que há muito perigo nas ruas, como as brigas internas e
o domínio das drogas. Ele diz que no passado as drogas não tinha tanto efeito,
mas hoje elas tomaram conta da maioria das pessoas, e principalmente de quem
está nas ruas em contato diário com elas. Ele também relata que já sofreu agressões, tanto de alguns colegas como de policiais. Mas esses
perigos não desanimam Lú: “Minha vida é bem vivida, lógico que eu passo por
problemas como qualquer outro ser humano, só que em lugares diferentes e com
pessoas diferentes”.
A maioria dos artistas de ruas também utiliza as redes sociais como forma de se comunicar, mas o viajante faz uma crítica a isso: “infelizmente esse negócio tomou conta da humanidade já não aguento mais isso, é tão chato isso. Tudo agora é: ‘ah vou postar no face!’ Pra mim isso é a degradação da mente e dos sentimentos do ser humano, é essa tecnologia regressiva.”
Ao
parar para observar a vida que levam são notáveis as renúncias tanto matérias
como familiares, e ao conversar com algumas dessas pessoas corajosas é
perceptível ver que seus ideais não estão tão longe daquele grupo dos anos 60,
eles também defendem a vida, a natureza e são contra qualquer guerra, procuram
viver em harmonia e união. Lú se opõe a conduta egoísta e individualista da
maioria das pessoas. No final da entrevista ele deixa uma mensagem importante:
“a forma de viver de vocês reprime, o poder que vocês têm é tirado”.
(Fotos tiradas por Fernando Santos, durante as entrevistas)