sexta-feira, 1 de agosto de 2014


Artistas que fazem das ruas seu melhor palco

“As pessoas que vivem assim já nasceram assim.” Comenta o artista de rua paulistano Fernando Frances de 29 anos.

Paz e amor, essa era a célebre frase associada um movimento de contracultura que nasceu nos anos de 1960, denominado movimento Hippie. Suas principais características eram a vida nômade, e a comunhão com a natureza, eram também contrários a guerra ou qualquer outra violência. Esse grupo idealista ganhou espaço e até hoje é possível perceber suas influências. Mas as pessoas corajosas que hoje deixaram suas famílias e o conforto de suas casas para se aventurar mundo a fora não se denominam mais como hippie, preferem serem chamados de andarilhos, viajantes, alguns de artesão, e outros de artistas de rua.
A cumplicidade o respeito que esses viajantes têm uns com os outros, e a paixão pela forma de vida escolhida impressiona qualquer pessoa que não esteja acostumada com essa opção de vida. Percebe-se isso pela forma como partilham o pouco que conseguem. Normalmente quando chegam a um local procuram saber onde fica a “pedra”. Pedra é o local onde eles expõem seus produtos, onde encontram os demais artesãos e compartilham alimentos, essa é uma alternativa para não deixar ninguém ficar sem comida. Geralmente é um lugar público onde circulam grande quantidade de pessoas, como praças e pontos turísticos.

Frances Fernando da Silva é um viajante que trabalha com artesanato, teatro de rua e malabarismo, já passou por muitas cidades do Brasil, nasceu em São Paulo, na cidade de Socorro, mas atualmente mora na Chapada dos Veadeiros, em Brasília. Ao falar de sua família é perceptível em seu olhar a saudade, ele diz que sempre foram pessoas tradicionais e religiosas, e algumas vezes abrigaram os viajantes que passavam pela cidade. Esse contato pode ter influenciado na sua decisão de sair de casa aos 20 anos para viajar e vender seu artesanato, “Eu terminei o ensino médio, fiz vestibular, não passei, ai caí na estrada” comenta, “Já viajei metade do Brasil, quando minha mãe vê na conta do telefone ela fica indignada, uma vez estou lá no sul, depois já estou lá no norte”.


Fernando Sempre se interessou por trabalhar com pedras, o que hoje é a principal matéria de seu artesanato, não se limitando somente na rua, também anima festas e festivais. Costuma passar 10 a 15 dias em cada local. Antes de vir parar cidade de Rio Branco, ele estava na aldeia dos índios Kaxinawá em Feijó. Em poucos dias pretende fazer o percurso: Bolívia, Peru, Argentina, Chile, Uruguai até chegar ao sul do Brasil e voltar para Brasília. Seu maior interesse a vir ao Acre foi não só pelo material e cultura indígena, como também pela Ayahuasca, bebida consumida em rituais dentro da doutrina espiritualista do Santo Daime ou em tribos indígenas. Sobre seus trabalhos artesanais ele acrescenta: “Não estou colhendo só os materiais, mas a cultura que o material leva como o material indígena que têm toda uma cultura por trás, as pedras, as sementes. Tudo isso é arte e cultura. Por isso não vendo só artesanato, tem toda uma historia por trás disso.”
O artista de rua se empolga ao falar de sua vida, e retoma questionamentos importantes sobre os valores sociais “A gente viaja, a gente aprende de tudo, a gente vê que as coisas matérias não vão trazer riqueza nenhuma, a gente busca fazer o que é bom, buscar Deus e Jesus que era um peregrino, também rodou muito, tenho ele como inspiração, qualquer um deve ter ele como inspiração, seguir os passos de Jesus e tentar ao máximo levar as coisas boas, porque eu não quero minha cultura só pra mim, todo lugar que eu chego eu ensino eu participo, fazendo minha vida útil pra alguém, não penso só em mim”.
Outro viajante é Lúdme Rocha Tavares de 33 anos nasceu em recife e hoje vive no Pará. Saiu de casa aos 17 anos para se tornar um viajante vendendo seu artesanato por onde passa. Sobre seu interesse ao vir ao Acre ele comenta: “é mais um pedaço do planeta, como sou viajante quero conhecer mais um pedacinho do que eu já conheço”. Lú, como gosta de ser chamado, está no estado há um mês, e perguntado sobre os desafios da vida que leva, responde: “desafios a gente encontra em qualquer lugar do mundo, em qualquer tipo de vida, filosofia ou forma de pensar. Cada lugar uma lei, uma história diferente, filosofias de vida diferentes, culturas diferentes e pensamentos diferentes.”


O andarilho também alerta que há muito perigo nas ruas, como as brigas internas e o domínio das drogas. Ele diz que no passado as drogas não tinha tanto efeito, mas hoje elas tomaram conta da maioria das pessoas, e principalmente de quem está nas ruas em contato diário com elas. Ele também relata que já sofreu agressões, tanto de alguns colegas como de policiais. Mas esses perigos não desanimam Lú: “Minha vida é bem vivida, lógico que eu passo por problemas como qualquer outro ser humano, só que em lugares diferentes e com pessoas diferentes”.

A maioria dos artistas de ruas também utiliza as redes sociais como forma de se comunicar, mas o viajante faz uma crítica a isso: “infelizmente esse negócio tomou conta da humanidade já não aguento mais isso, é tão chato isso. Tudo agora é: ‘ah vou postar no face!’ Pra mim isso é a degradação da mente e dos sentimentos do ser humano, é essa tecnologia regressiva.”
Ao parar para observar a vida que levam são notáveis as renúncias tanto matérias como familiares, e ao conversar com algumas dessas pessoas corajosas é perceptível ver que seus ideais não estão tão longe daquele grupo dos anos 60, eles também defendem a vida, a natureza e são contra qualquer guerra, procuram viver em harmonia e união. Lú se opõe a conduta egoísta e individualista da maioria das pessoas. No final da entrevista ele deixa uma mensagem importante: “a forma de viver de vocês reprime, o poder que vocês têm é tirado”.

(Fotos tiradas por Fernando Santos, durante as entrevistas)






Nenhum comentário:

Postar um comentário