O enigmático Foster Brown

No
dia 30 de maio, uma sexta feira normal como todas as outras, nós alunos do 4°
período de jornalismo da Universidade Federal do Acre esperávamos ansiosos por
ele, nosso primeiro entrevistado. Era uma sensação incomum, pois quase todos
nós compartilhávamos esse mesmo sentimento, era uma mistura de curiosidade e
nervosismo. Talvez porque a maioria de nós nunca foi desafiada a fazer esse
tipo de entrevista, exceto os que já trabalham na área de jornalismo. Ou talvez
esse sentimento seja porque que quase ninguém conhecia ele, na verdade
conhecíamos por nome, Foster Bronw. Se analisarmos bem, seu nome já diz muito.
Não é um nome comum, e não poderia ser já que pertence a uma pessoa tão incomum
quanto.
(Foto retirada do Facebook de Foster Brown)
Tantos
pensamentos passaram em minha cabeça nos poucos minutos que esperávamos por
ele, pois já ouvi falar de seus trabalhos. Mas nunca imaginei encará-lo frente
a frente tão rápido, imaginava que era uma pessoa enigmática, e naquela noite
tive a certeza. Então como se cortasse meus pensamentos pela metade uma amiga
tocou em meu ombro e falou: “olha, deve ser ele ali naquele carrão”. Observamos
fixamente para o carro bonito que acabava de estacionar. O homem que estava no
carro saiu em outra direção. Não era ele. Mas no momento em que nos
decepcionávamos com o falso entrevistado, um homem transportado por bicicleta
iluminada se aproximava de nós. Sorrateiramente ele acomodou seu pequeno
veículo no meio dos carros e motos que ali estavam e saiu em direção ao nosso
bloco. Só então me dei conta que era ele. O enigmático Foster Brown.
Trajava
um colete florescente, como os de guardas de trânsito. Uma mochila que parecia estar
bem equipada para qualquer emergência. Aparentava estar preparado para
percorrer um longo caminho, sem preocupação com o retorno. Usava uma calça
comprida com as barras dobradas, talvez tenha sido necessário dobrá-las para se
locomover na bicicleta. Porém uma das barras estava mais elevada do que a
outra, era uma desigualdade evidente que em primeiro momento incomodava os que
estão acostumados a “arrumar” tudo. Mas ele em nenhum momento se preocupou em
alinhá-las ou com quem desejava isso. Suas botas demonstravam ter percorridos
longos caminhos e muitas histórias para contar. E apesar do sotaque ainda meio
americanizado sua voz é firme. Dizia poucas palavras, mas as pronunciavam com convicção.
Ao
começar a entrevista a professora Juliana Lofego apresenta o entrevistado, “Hoje
nosso entrevistado é o professor Foster Brown, é professor aqui da Ufac do Mestrado
em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN), é pesquisador das mudanças
ambientais [...]”. Ele começa respondendo o motivo que o levou a vir morar no
Brasil. Relata que desde suas experiências na universidade ele teve contado com
o Brasil, e quando surgiu a oportunidade de vir trabalhar no Rio de Janeiro ele
aceitou e morou lá por cinco anos. Depois, ao chegar ao Acre para passar um ano
acabou permanecendo por 22 anos.
Ao
término de cada resposta persistia um silêncio antes da pergunta seguinte.
Talvez seja timidez da turma ou as respostas dele que eram pequenas demais para
o tempo que lhe cabia. O que era mais curioso além de suas breves respostas
eram as metáforas ditas para exemplificar sua opinião. Ao responder sobre sua
responsabilidade como cientista, ele conta “Estou num barco grande, com muitos
passageiros. Tenho um certo conhecimento, que poucos têm. E tento falar para o
capitão que se continuar nesse caminho vamos bater nas pedras. Mas quando olho
para baixo, no casco tem furos. E a água está entrando no casco. Se eu não
descer e trabalhar nos furos nós não vamos chegar até para bater nas pedras
muito menos mudar de rumo. Então minha atividade de defesa civil é trabalhar
com eles pra tapar os furos do casco do navio pra gente poder mudar de rumo no
futuro”.
Em
entrevista para a Amazônia s/a, Foster falou que era fã das pessoas que duvidam
que a influência humana tem afetado o clima. E o ser questionado sobre essa
entrevista responde: “aqui são dois médicos, você está com tosse, esse médico
aqui disse: ‘nós vimos seus exames, o problema vai ser fatal, e o tratamento
vai ser caro e doloroso’. O outro disse: ‘olhando sua situação, você é
estressado [...] você tem que se divertir e sair. Vai se sentir muito melhor’.
Desses dois qual você quer? [...] Ele tem a triste realidade, mas você vai se
sair melhor com ele porque vai sobreviver do que seguindo o conselho que é
conveniente”. Ao fazer esse comentário ele conclui que a maioria das pessoas
prefere acreditar em um futuro melhor mesmo ele não sendo real. Essa discussão
traz uma ligação com seu discurso de “preparar para o pior e esperar pelo
melhor.”
Sua
conversa não durou mais do que uma hora em sala de aula. Tudo que conseguimos
foram respostas pontuais e objetivas sobre seu trabalho, algumas histórias
metafóricas e quase nada sobre a vida pessoal. Comentou sobre seu kit para
situações de emergência que guardava em sua casa. Falou sobre sua preocupação
com o futuro de sua neta, que na verdade descobri mais tarde que era neta por
adoção. Não revelou muito sobre seus gostos ou hábitos, não nos permitiu entrar
a fundo sobre o Foster como cidadão comum, pai ou marido.
Alguns se sentiram frustrados por não
conseguir dele respostas prontas. Admito que no momento achei que essa teria
sido uma das piores entrevistas que já vi, ou a que deu mais trabalho. Ele é
cientista renomado e não respondeu nossos questionamentos. Mas então me dei
conta que depositamos nele a responsabilidade de ter a resposta certa para
nossos anseios do futuro. Depois de um tempo me dei conta que ele quebrou todos
os paradigmas que tínhamos sobre cientistas. Ele nos mostrou que apesar de
estudar muito ele não têm todas as respostas, assim como nós, e a
responsabilidade disso não é só dele. É de todos nós. Ele não deixou de
responder por arrogância mas para se colocar na mesma situação que nós e dizer
que não temos que esperar que um cientista brilhante descubra a formula de
salvar o mundo. Ele não falou tantas palavras técnicas que esperávamos ouvir de
um cientista. Ela usava termos comuns, falava com simplicidade, e é capaz de
dizer que também erra, na verdade ele admitiu isso na publicação de uma matéria
com o título: “Errando como cientista ambiental e preparando para os futuros
desastres” e ainda comenta “a ciência avança muitas vezes via erros e acertos.
No meu caso como cientista ambiental, os meus erros têm me ensinado mais do que
meus acertos.”
E então comecei a me perguntar: Será que respostas
bonitas e prontas eram realmente o que precisávamos? Na verdade sim. É o que
precisamos para fazer uma reportagem comum. Ouvir respostas é mais fácil do que
ouvir questionamentos. E então eu percebi importância desse homem enigmático no
meu crescimento não só como jornalista, mas como cidadã. Entendi que eu preciso
me questionar mais, procurar mais e não em contentar com respostas prontas. Procurei
saber mais sobre ele, mas só descobri suas ideologias em seus textos. Textos
que revelam muito dele. Somente isso, pois nem seus amigos mais próximos sabem
muito sobre sua vida pessoal. Esse homem continua misterioso para mim. Mas de
alguma forma me senti acolhida por suas palavras. E ao analisar seus artigos e
textos publicados percebi não só sua preocupação constante com o futuro do
mundo, mas também seu trabalho contínuo para melhorar o máximo que pode e alertar
a todos.
Nós somos os passageiros daquele
navio que ele cita em seu comentário. Quem nos conduz não está tão preocupado
com nosso destino final apesar de saber onde vai dar. Precisamos consertar os
buracos do casco, resolver o problema emergente e mudar o rumo do nosso
provável destino.
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